[Este post não contém spoilers]

Nos últimos meses, duas obras de ficção foram lançadas mundialmente e causaram enorme repercussão. Ambas tem como tema central o racismo nos tempos atuais, e seus protagonistas são jovens negros de classe média.

Achei super interessante a abordagem dos dois trabalhos, e percebo que eles representam a nova fase do debate sobre as relações étnicas no cinema e na TV. Então quis falar um pouco sobre eles aqui. Não como crítica técnica de cinema e televisão, áreas que não tenho domínio. Apenas como uma abertura ao debate sobre essa nova forma de representatividade negra na ficção.

No cinema, o thriller “Corra” (Get Out – Jordan Peele, 2016) chamou a atenção de todo mundo por ser um sucesso de bilheteria e de crítica ao falar de racismo pela ótica de uma pessoa negra, sem abordar escravidão, violência urbana ou pobreza. E em vez de se tratar de um drama carregado de lições de moral mastigadas e sentimentalismos, “Corra” é um filme de terror dos bons, com direito a todos os elementos característicos do gênero. Atuação, direção, roteiro… tudo é impecável!

Chris (Daniel Kaluuya), um jovem e bem sucedido fotógrafo, é negro e namora com Rose (Allison Williams), branca progressista e “mente aberta”. Ele vai passar um final de semana na casa dos pais dela, que ainda não o conhecem.

Mas Chris não tem com o que se preocupar! Logo de cara ele percebe que a família de Rose é tão liberal quanto ela, e ele é recebido com carinho e até euforia pelos pais da moça. Até que ele percebe que tem algo estranho acontecendo naquela casa.

O desenrolar da história é eletrizante e retrata um tipo de racismo extremamente perigoso e frequente na nossa sociedade atual. O que acontece exatamente não vem ao caso, mesmo porque não vou dar spoilers aqui! Mas, o mais legal é que, independente dessa trama principal, ao longo de toda a história são retratadas microagressões rotineiras, típicas da convivência de pessoas negras com brancas. Muitas delas sem intenção de ofender, e algumas inclusive camufladas de boas maneiras e “gentileza” por pessoas brancas que se consideram aliadas a favor da igualdade! Mas que alimentam e muito uma cultura discriminatória e estimulam estereótipos.

O filme é uma obra prima, que já vem sendo considerado por muitos um “clássico instantâneo”. Imperdível!

Já a série “Cara Gente Branca” produzida pela Netflix e baseada no filme homônimo de 2014 é uma mistura de drama e comédia.

A primeira temporada tem 10 episódios que contam a história de Sam White (Logan Browning) e outros jovens negros numa universidade majoritariamente branca nos EUA. Depois de uma festa blackface organizada por um grupo de alunos brancos, o ambiente acadêmico fica tenso, e a partir daí se desenrola a trama.

“Cara Gente Branca” foi recebida por um grupo de pessoas com muito desgosto. Até aí, nenhuma surpresa, considerando o título e a premissa da série. Em vez de compreender que a discussão vai muito além de si mesmos, pessoas desinformadas e fechadas ao diálogo encararam a série como uma afronta às pessoas brancas. O resultado dessa total incompreensão e falta de empatia foi uma enxurrada de “dislikes” no trailer da série no Youtube, boicote à mesma e ao Netflix como um todo, e diversas críticas negativas por toda a web. Nada que abalasse o índice de 100% dos críticos no site Rotten Tomatoes.

CGB é mais uma entre várias séries fantásticas no quesito “entretenimento” produzidas atualmente, mas diferente da maioria delas, também tem muito a dizer. A série é inteligente, confiante, envolvente e tem um elenco incrível. A cada episódio ficamos mais ligados e imersos na história, que provoca uma sensação de identificação e também auto-reflexão tanto na comunidade negra quanto branca. E não é exatamente isso que precisamos?

“Corra” e “Querida Gente Branca” são relevantes e necessárias! Tanto o filme quanto a série são provas de que os negros finalmente estão assumindo controle da discussão sobre inclusão, discriminação e identidade nos tempos atuais. E revelam também, de forma muito realista, o retrato da juventude negra que, de diferentes maneiras, se revolta e resiste diante das manifestações de racismo ainda tão presentes na nossa sociedade.

E vocês,  já assistiram? O que acharam?


Beijos,

Lu

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