Ao som de Cartola, vou diagramando esta entrevista, e a Mari me faz lembrar as protagonistas dos meus filmes, livros, seriados preferidos, as mulheres que inspiraram artistas. Mulheres intensas inspiram. E faz sentido que, graças a essa intensidade, tenham propensão também a criar, extravasar sua imensidão em formas mais poéticas e menos mundanas.

A impressão que eu tenho é que a Mari tem um universo dentro de si, talvez um universo mais complexo e com mais subníveis do que o padrão. E existe nela, além disso, uma inquietação por expor pedaços desse universo em forma de arte. Cada pouquinho é muito. Mas sorte nossa se tivermos o privilégio de estar por perto para ver essa imensidão toda transbordar.

E me veio à cabeça esta citação: “Me estremecieron mujeres que la historia anotó en sus laureles. Y otras, gigantes, que no hay libro que las aguante”. S. Rodriguez.

1. Conta sobre seu projeto criativo atual e peso que ele tem na sua vida neste momento.

Retomei um projeto de quadrinhos que estava suspenso desde o fim do ano passado. Embora a história já estivesse pronta, desenhá-la como imagino é sempre mais complicado – considerando que não domino muito a técnica. Agora encontrei um tempo no meio do bololô de trabalhos (daqueles que pagam as contas) e resolvi seguir.Esse projeto é bem importante por alguns motivos: é a primeira história em quadrinhos mais longa que escrevo (até então, só havia feito tirinhas), além de tratar de um assunto forte pra mim, a recente morte do meu pai. Na verdade, é uma realização pessoal, uma forma de homenagem a alguém que foi muito importante na minha vida. Como diria o personagem de um filme do Bertolucci que adoro, trata-se de ‘um parêntese deliciosamente particular’.

2. Você tem um ídolo criativo que te inspira? O que o torna genial, no seu ponto de vista?

Ô pergunta difícil! Eu tenho alguns (em algumas áreas distintas), mas vou me restringir ao desenho e citar dois, já que estamos falando disso. Tem o Saul Steinberg, que é um ilustrador americano que fez, por alguns anos, as capas e cartoons da New York Times. Adoro o trabalho dele porque é bem sacado, irônico, além de admirar o traço fluido e a maneira como utiliza os materiais (lápis, canetinha, nanquim, giz de cera) para dar peso ao que quer dizer. Tem também o Lourenço Mutarelli – que agora é meu professor – um puta artista! O cara desenha lindamente, escreve muito bem e, especialmente, é um sujeito muito doce e generoso. Um mestre, na amplitude da palavra.

3. Entre trabalhos digitais e tradicionais: qual tipo mexe mais com você?

Os tradicionais, sem dúvida. Eu gosto da hesitação, do erro, do tentar consertar e não conseguir completamente – essas coisas me dizem mais do que formas perfeitas, vetorizadas, super limpas. É mais humano. Quase como não saber onde colocar as mãos quando se está nervoso ou não dar a melhor resposta pra alguma pergunta e depois ficar se culpando por isso. A vida sem auto ajuda, sem filtro bonito, o de repente. Acho isso especial demais.

4. Há quem associe o processo criativo à espiritualidade. Como você vê essa relação? Como ela afetou (ou não) a constituição da sua personalidade, valores e relacionamentos interpessoais?

Por ter sido criada em uma família atéia, a espiritualidade (pelo menos no sentido de crença religiosa) nunca foi uma questão pra mim. Na verdade, é um assunto que não exatamente me interessa, ou um pensamento que me ocorre muito pouco. Eu acredito em energia, em potencializar ações ou relações que me despertem esse sentimento de bem estar, em me colocar próxima a pessoas que me transmitam algo bom. Talvez a sensação de plenitude que a criação (especialmente autoral) é capaz de dar, possa estar ligada a essa energia (tanto como impulso de criação quanto como recompensa).

5. Tem algum recurso que vc não abre mão pra estimular sua criatividade? Tipo café, exercício físico, viajar, ler….?

O café tá sempre na mesa, em qualquer situação, então seria picaretagem dizer que só o utilizo para a criatividade; é vício. Tem um exercício que aprendi e tem funcionado bastante para desconstrução da linha de pensamento. Costumamos sempre pensar do mesmo jeito, pelas mesmas vias, aquele jeito que aprendemos e nos parece mais natural. Mas pro exercício criativo é interessante quebrar esse caminho, então costumo ouvir músicas e assistir alguns vídeos que não assistiria em situações normais, que não são exatamente confortáveis ou estão dentro da minha área de interesse. Pra mim funciona como alargador de repertório e permite que meu pensamento passeie por lugares que eu não o levaria naturalmente. Conversas alheias são boas fontes também, especialmente quando você pode se meter, esticar o assunto, fazer perguntas. É tiro e queda.

6. Se fosse pra escolher uma música que descreve sua vida até o dia de hoje exatamente. Qual seria?

Não sei se essa é a música que descreve minha vida, vida é muita coisa pra restringir a uma canção, né? Mas é uma música que me traz muitas lembranças, especialmente da infância, me emociono sempre que ouço: O Mundo é um Moinho, do Cartola.

Mais informações sobre a Mari Casalecchi e seus trabalhos no Urban Arts.

Aproveita que está por aqui e da uma olhada na entrevista com a designer de joias Raquel Paiz! E me segue lá no Instagram 🙂

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