Vou tentar explicar sem muita enrolação minhas percepções sobre a mostra “O Universo Gráfico de Glauco Rodrigues” que tá na Caixa Cultural até dia 21 de agosto. Longe de mim tentar bancar a crítica de arte. Não tenho formação em arte e muito menos cacife para fazer uma critica à obra de um dos artistas mais importantes da arte moderna brasileira. Mas a arte gráfica faz parte também do meu universo, é a minha profissão e algo que eu gosto pra caramba. Então vamos lá.

A exposição em si não tinha frescuras nem invenções de moda. Ponto pra eles. O foco eram as 100 obras originais do Glauco Rodrigues expostas ali, que incluiam pinturas, ilustrações, litografias, linoleogravuras, litografias, posteres… o que mais esse cara fez? Já que você perguntou, ele fez cenografia, capas de livros, revistas e discos, vinhetas para televisão, murais, entre muitas outras coisas.

Essencialmente, Glauco Rodrigues foi mestre das artes gráficas. Sob o ponto de vista poético, achei sensacional a definição que Luis Fernando Verissimo fez do ofício do amigo (texto no finalzinho do post). Na teoria, as artes gráficas englobam técnicas artísticas que envolvem impressão e reprodução das peças. Em muitos casos, como em alguns trabalhos do próprio Glauco, as imagens vem acompanhadas de textos, seja para estampar a capa de um livro, o conteúdo de uma matéria, um poster de filme. Hoje em dia, como não poderia ser diferente, e eu acho que eu posso afirmar isto com segurança, quase toda arte gráfica produzida no mundo é criada digitalmente. O famosíssimo e banalizadíssimo Design Gráfico.

Eu queria ficar horas, dias escrevendo sobre cada detalhe de cada obra, mas acho que vale mais a pena cada um ir lá conferir. Entre os blocos (as obras estavam divididas assim) me apaixonei pelo “Tipos brasileiros”  e o bloco de serigrafias dos pampas gaúchos. A série ‘Guia Turístico e Histórico do Rio de janeiro’ é a mais badalada e não é a toa não. As serigrafias são bem legais mesmo, e ele parece que faz mágica na combinação das cores. Agora, de tirar o chapéu MESMO, na minha humilde e tendenciosa opinião, são as capas que o Glauco fez para a revista Senhor a partir de 1959. São ilustras geniais, inesperadas, únicas, cheias de personalidade, e principalmente, feitas à mão. Algo que eu consideraria extraordinário de se ver em uma banca hoje em dia.

Consigo ver o Glauco como Diretor de Arte de uma mega agência publicitária do Rio, ou de Porto Alegre. O talento e a visão do cara são muito evidentes, as obras são gostosas de se ver, elas tem vida. Mas me chamou atenção aquilo que vai além do estético. O encantamento que elas provocam, o apelo quase comercial daquelas imagens que te deixam intrigado e fascinado, a fim de mergulhar naquelas cores e naquelas formas.

Eu queria saber o segredo para se fazer de clichês, obras tão surpreendentes. Acho que voce precisa saber muito bem do que está falando, sentir aquilo na pele. Precisa ter o assunto tão enraizado dentro de voce que por mais técnica que se aprenda e se pratique, ou materiais que se explore, por mais diferentes que sejam os traços e cores, elas acabam todas tendo uma mesma alma, uma mesma verdade.

“Pedra. Madeira. Linóleo. Metal. Nada disto é tela, mas tudo vira tela nas mãos do artista gráfico.

Se a pintura é um mergulho, a arte gráfica é a arte das superfícies. A arte do que estiver à mão. 

A arte gráfica não discrimina o que a contem. Folheto. Poster. Programa. Capa. Ilustração. Seja para o que for que se destina, é arte.

Pampa. Brasil colonial. Brasil um minuto antes da descoberta misturado com o Brasil de agora. Nossas cores e nossas sombras. São Sebastião e a moça de bikini, nosso martírio e nossa redenção embaixo do mesmo sol. Num flagrante ou numa composição, o Brasil de todas as evocações e paradoxos.

E acima de tudo, a técnica do Glauco. O seu admirável saber fazer, em qualquer superfície. Ninguém como ele combinou sensualidade e rigor artesanal e fez um retrato tão preciso deste carnaval.

Na sua obra gráfica como na sua pintura, o Glauco nunca deixou de dizer: que país curioso este nosso, e que país bonito.

Luis Fernando Verissimo

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